Hoje quem conta a sua história no Correndo na Chuva é o amigo Luiz Sebastião, lá da cidade de Olinda-PE.Ele nos conta sobre a sua primeira participação na tradicional corrida de São Silvestre e o texto está muito bom, apesar de um pouco extenso, mas vale muito a pena dar uma lida e depois comentar o que achou!UMA CRIANÇA NA CORRIDA DE SÃO SILVESTRE - Luiz Sebastião Jr.Em alguns momentos de nossas vidas é preciso ouvir a criança que vive dentro da gente, é preciso deixá-la sair, é preciso render-se às suas vontades.
Lembro como se fosse hoje dos finais de ano de minha infância, dos dias 31 de dezembro, da expectativa pelo ano novo que chegava, das mudanças que ocorriam naquela época do ano e de como, naquele dia específico, ficava vidrado na TV assistindo a um evento que à primeira vista não parecia ter nada a ver com os últimos momentos que antecediam às festas de reveillon: milhares de pessoas, pouquíssimas famosas, uma multidão de anônimos, correndo, algumas com faixas e fantasias, pelas ruas de São Paulo, na famosa Corrida de São Silvestre. Lembro de ficar dando voltas no jardim de casa me sentindo o próprio Rolando Vera, atleta equatoriano, campeão quatro vezes consecutivas naquela época. Recordo de dizer, para mim e para todos, que um dia iria correr a São Silvestre. Obviamente riam de mim e certamente pensavam algo como: “criança tem cada idéia!”
Alguns dizem que a gente cresce e acaba perdendo a ingenuidade, a pureza e a alegria da criança que um dia fomos. Não acredito nisso, apenas acabamos por esconder da sociedade o que de melhor temos, por medo de sermos ridicularizados. Adão e Eva foram crianças que ao crescer perceberam-se como realmente eram, e ficaram com vergonha de assim serem. Sentiram-se ridículos e passaram a usar as folhas de parreira da ignorância e da arrogância, encondendo a beleza de admitirem-se, como diz o grande Gonzaguinha, eternos aprendizes. A vontade de ser pequenos deuses nos faz esquecer de ser quem somos, belos, ingênuos, puros, felizes, aprendizes eternos. Passamos a nos preocupar com o pecado original ao ponto de esquecermos que originalmente somos mesmo inocentes, que antes do pecado há a inocência original.
Mas como disse no começo, um dia essas coisas voltam à tona, seja por mudança gradual ou, como é mais comum, por mudanças abruptas que nos fazem repensar nossos destinos, e mesmo que este “repensar” não altere completamente nossos caminhos, ao menos nos fazem trilhar, durante algum tempo, por trajetos pouco comuns. No meu caso um desses trajetos foi de exatos 15km, os 15.000 metros que separam a largada da chegada na Corrida Internacional de São Silvestre.
Setembro de 2007, um revés profissional precipitou-se em meu caminho. Nessas horas olha-se para o presente, para o futuro e bastante para o passado. Nesse momento, cruzo com o Luiz criança, correndo em torno de um “pé de flor” imaginando que os poucos metros daquela circunferência eram semelhantes ao asfalto paulistano. E num gesto de impulso lá estava eu, na internet, fazendo minha inscrição, comprando passagens aéreas, reservando hotel, correndo na beira-mar de Olinda, no começo mal agüentando 1km, mas persistindo dia após dia.
Mas não era apenas correr a São Silvestre que eu queria, meu objetivo era também retornar ainda em 2007 para casa. Queria “passar o ano” com minha família. No papel o plano estava bem delineado: corrida, corrida para o hotel, corrida do hotel para o aeroporto (Guarulhos), vôo saindo às 21h. Duração prevista: 3 horas e 20 minutos. Fazendo as contas não daria tempo, mas bendito horário de verão que o Nordeste não segue, de modo que se ganha uma hora voando-se contra o fuso. Previsão de chegada: 40 minutos antes de 2008 começar a explodir em fogos de artifício. Família meio contrariada com o rompante de alguém que sempre foi muito certinho. Por dentro, orgulhosa; por fora preocupada. Tempos de problemas aéreos, atrasos em aeroportos, probabilidade alta de entrar em 2008 sentado no chão frio de um aeroporto. Mas o processo já havia sido iniciado e havia outra dificuldade: não conhecia São Paulo! Bendito seja o Google Maps e o Motorola A1200. Nada como a tecnologia!
Entre passeios e descansos (repouso é importante) chega o grande momento. A Av. Paulista parecia com o carnaval da minha Olinda, sem as ladeiras (descobriria eu mais tarde que uma ladeira em especial me esperava em poucas horas). Gente fantasiada, sorrindo, tirando fotos, enfim, uma festa onde éramos ao mesmo tempo convidados e homenageados. Eu estava em uma competição esportiva, oficial, profissional, sem a mínima chance de fazer um tempo menor que 2h, mas o povo estava lá para torcer por nós. Onde isso acontece? Já imaginaram um Fla x Flu, um Corinthians x Palmeiras, um Náutico X Sport (só pra lembrar da minha terra) e ao final do jogo o público esperar para ver uns peladeiros jogarem? Pois bem, os quenianos já haviam ganho a corrida a mais de uma hora, mas muita gente continuava ali, principalmente na tal ladeira, na inacreditável subida da Brigadeiro Luís Antônio, dando força para que não desistíssemos. Só a São Silvestre permite isso, esquecer de tempo e de posição, e pensar apenas em cruzar a linha de chegada.
Mas eu pulei o início e fui quase para o fim. Voltemos... vai se aproximando a hora da largada e a ampla Av. Paulista parece encolher, até o ponto em que você percebe que não há mais como sair de onde está. A ansiedade vai para as alturas, o narrador ao longe anuncia a largada, bolas de gás são lançadas no céu, o barulho dos fogos de artifício ressoam pelo ar, todos batem palmas e... e... e... e continuamos ali parados. É nesse instante que eu percebo que antes da Corrida de São Silvestre, existe a “Parada de São Silvestre”, de onde eu estava ficamos cerca de seis minutos parados. Aos poucos começamos a nos arrastar bem lentamente: a “Arrastada de São Silvestre”. Mais alguns minutos e conseguimos enfim... caminhar (“Caminhada de São Silvestre”). Após doze longos minutos eis que me deparo com a placa de... LARGADA.
O começo é uma maravilha, todos sorrindo, aplausos, o Shrek e um dos Transformers correndo ao meu lado, descida da Consolação, as pessoas se confraternizando, pouco se importando com o tempo, brincando com o semáforo que acabara de ficar vermelho dizendo que devíamos parar. Contudo, o melhor foi ver os corredores cantando uma música bem conhecida ao dobrar uma certa esquina: “alguma coisa acontece no meu coração, que só quando cruzo a Ipiranga e a Av. São João”. Tem coisas que a Globo não mostra!
Calor escaldante! A metereologia informou que o dia anterior havia sido o dia mais quente de 2007 na capital paulista e o dia seguinte não devia estar perdendo por muito. Água? Só no km 4, um absurdo, e ainda mais quente. Até isso virou piada no orkut, pois alguém muito espirituoso justificou que a água quente devia ser para honrar o pacote de café que veio no kit do corredor, brinde de um dos patrocinadores. Bem, mas isso é um detalhe...
Km 5, Elevado Costa e Silva, primeiro trecho em aclive, os efeitos da empolgação passando e de repente a gente se vê perguntando a si próprio o que se está fazendo ali. Um dos voluntários, não sei se querendo estimular ou fazer gozação diz: “ah, se continuar assim não completa os 15km". Provavelmente o comentário era para que corréssemos mais rápido, mas aí me lembro da fábula do Ésopo, da lebre e da tartaruga, que deve-se ir devagar se vai-se ao longe. Diminuí o ritmo, eu estava só em São Paulo e lembrei-me que até a virada de 2007 para 2008 eu teria que enfrentar outras corridas. Portanto, não podia exagerar!
Km 8 e um dos momentos mais cruciais segundo meu planejamento. Se fosse desistir deveria ser ali, pois passando daquele ponto, voltar demoraria mais do que completar a corrida. Pensei: “só em estar aqui já é muito!, vou voltar para o hotel e começar meu regresso com mais tempo de sobra”. Aí a criança voltou a incomodar, a querer sair de dentro e com ela saiu também uma força estranha, talvez a mesma força que o Caetano disse que fazia o Roberto Carlos cantar. Resolvi continuar...
Tudo ia bem, até o ritmo melhorara, faltavam apenas 2km, só que, se no meio do caminho do Drummond havia uma pedra, no meio do meu caminho havia a já comentada “subida da Brigadeiro”. Contornar a esquina que me levava novamente à Paulista e ver uma placa escrita CHEGADA, parecia um sonho. Mas quando o sonho se mostrou bem real, o cansaço sumiu, a prudência se escondeu e se um dia eu conseguir correr os 15km naquele ritmo que corri os últimos 200m, é melhor que os quenianos se cuidem...
Brincadeiras à parte, cruzar a linha de chegada junto com o Luiz criança que agradecia pelo Luiz adulto ter tornado aquele sonho real, foi uma das melhores experiências da minha vida. Para encurtar a história, o plano de estar junto à família à meia-noite, a despeito de todo o caos aéreo fartamente noticiado naqueles dias, também se tornou realidade.
Às margens da praia de Boa Viagem, vendo o show pirotécnico ali apresentado, a medalha de participação na corrida era mais do que uma medalha, era a comprovação de que aqueles momentos foram reais, que embora nada pudesse garantir que 2008 fosse ser realmente um feliz ano novo, ao menos aquele dia seria novo sempre que eu fizesse sua memória, até porque etimologicamente fazer memória não é apenas recordar o fato, mas sim vivenciá-lo novamente em cada recordação, é acabar com o paradigma do tempo – passado, presente, futuro – é criar um rito, que na definição da raposa do livro do pequeno príncipe, é fazer com que um dia seja diferente dos outros dias, uma hora seja diferente das outras horas.
Esse é o relato do Luiz. Você também pode ver o seu relato publicado aqui no Correndo na Chuva! Para isso, basta escrever o seu texto e enviar para contato@correndonachuva.net. Mas não esqueça! O texto tem que ser original e narrar sua história com a corrida, como começou, onde, quando, como foi a primeira prova, e por aí vai. Não perca tempo, envie a sua história de amor com a corrida! Um abraço para todosBruno Thomaz