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Projeto Conte sua história [6]

No mês de janeiro abri o espaço do Correndo na Chuva para que os leitores pudessem contar a sua história de amor com a corrida. Fiz isso porque meus leitores já estavam cansados de tanto lerem eu contando sobre a minha história pessoal. E foi muito gratificante ver outras histórias sendo publicadas aqui nesse cantinho que eu considero especial demais.

Recentemente, um leitor assíduo mandou um comentário e nesse, ele dizia que havia jogado 30kg pelo ralo desde que começou a correr. No mesmo instante eu pensei: "Taí, uma história pra contar no blog". Fiz a proposta pro amigo leitor, e hoje recebi a sua resposta, com o texto pronto. Confesso que gostei e me emocionei com a história do amigo Jackson Comex, de Porto Alegre.

Agora conheçam vocês também a história de superação do Jackson:

... Eram meados de novembro de 2007 e eu completamente tenso com o envolvimento do meu trabalho de conclusão de curso da universidade, sem tempo para nada, conciliando meu novo emprego, que acabara de ser nomeado e que exigia muita responsabilidade e profissionalismo, com aulas na faculdade e preparação para a banca examinadora de final de curso. Por muitas vezes a fome era constante, porém o tempo era curto, logo eu compensava as refeições não comidas durante o dia nas madrugadas sem fim em que digitava meu trabalho de conclusão. Foram tempos muito difíceis, compensava a ansiedade e o desequilíbrio na alimentação. Em fevereiro de 2008, após passar todos o estresse de banca, formatura e trabalho de conclusão de curso, “acordei” na beira da praia com vergonha de tirar a camisa, pois estava pesando 118 quilos. Eu não conseguia fazer mais nada. Subir ao ônibus e escadas era uma vergonha. Percebei que as minhas roupas já não suportavam mais minha gordura. e os meus amigos se afastaram de mim. Presenciei o desespero da minha família preocupada com minha saúde. A minha coluna doía por toda a noite... o coração estava esmagado e os joelhos rangiam.. Eu não tinha noção da quantidade de alimento ingerido - pasme chegava a comer um fardo inteiro de pão de sanduíche durante a refeição, que normalmente eram nas madrugadas. Não sentia mais o ar e o meu pulmão estava apertado e nem podia apreciar o oxigênio de forma satisfatória. Tudo isto foi muito triste... até que um dia disse para mim mesmo CHEGA!!!! ASSIM EU ESTOU COMETENDO UM SUICÍDIO!!

Desde então, comecei a caminhar vagarosamente no parque Marinha do Brasil e no Parcão, pois meu peso me consumia e cada passada dada era um grande desafio. Durante todos os dias em que caminhava eu via muitas pessoas correndo.... pessoas das mais variadas idades e estereótipos... e todos correndo com um semblante de satisfação de prazer.... e coloquei um desafio para mim mesmo: EU TAMBÉM QUERO CORRER E PODER SENTIR A MARAVILHOSA SENSAÇÃO DE SATISFAÇÃO!!!

A partir desta decisão, aos poucos comecei correndo 5 minutos por dia, sentia dificuldade, mas eu consegui correr. No outro dia corria 6mim e no outro 8mim e no outro 12mim, assim sucessivamente. Em muitos dias de frio intenso, lá estava eu correndo sozinho na avenida Beira-Rio. Em muitos dias de chuva e lá estava eu correndo. A minha dedicação era constante e o meu objetivo era real. Com o passar do tempo notei que minhas roupas começaram a entrar... que eu podia caminhar mais leve e tranqüilo, que eu podia subir escadas sem cansar, enfim que eu podia respirar.

HOJE DIGO COM MUITA SATISFAÇÃO QUE CORRER TRAZ FELICIDADE!

Hoje, sou outra pessoa. Estou com 30 quilos a menos do que quando iniciei minha jornada. Sou uma pessoa normal. Minha alimentação é balanceada. Possuo uma vida saudável, sem vícios. Corro quase que todos os dias. A corrida foi o “started” que faltava para a minha vida. Hoje eu posso respirar, tenho muito prazer em correr e nem preciso falar para você sobre os benefícios da corrida.

Conforme o tempo foi passando comecei a mergulhar no mundo maravilhoso da corrida. Assinei a Runner’s para aprofundar o assunto. Conheci corredores virtuais. Passei a acessar blogs, com uma frequência muito grande o seu blog - Correndo na Chuva, que ao meu ver é o mais completo e é muito pertinente e esclarecedor ao tema em questão e é produzido por um grande incentivador e vencedor – gaúcho de Porto Alegre. Ouvi seu podcast e admiro sua trajetória e seus pensamentos.

Bruno, seu blog fez parte da minha conquista, foi um incentivo para minha jornada e ainda é. Algumas vezes chego cansado do trabalho sem vontade de treinar, logo ligo o computador para ler o blog e ver alguns vídeos de corrida no YouTube e em segundos o “bichinho da corrida” desperta e a motivação volta instantaneamente.

No sábado terei minha primeira participação especial numa corrida oficial, será minha primeira medalha de participação, de muitas outras que virão... meu objetivo é “correr o mundo”...hehehe. Desta vez não irei ousar correr a meia, mas por enquanto, apesar de já me sentir preparado.

Acabo de ler seu último post sobre o vício em correr... e como de sempre está formidável!!! Desejo muito sucesso na sua área de atuação, pois você tem um potencial imenso. Às vezes me questiono, dos motivos pelos quais você não continuou no curso de jornalismo, pois és um excelente profissional. Espero poder me encontrar com você o mais breve possível nas pistas de Porto Alegre, para deixarmos de ser amigos virtuais e poder correr junto, quem sabe, nas pistas das maratonas do mundo!!

Um forte abraço e até sábado... tentarei te achar no meio da multidão de inscritos... acessei o Blog do CORPA agora e fiquei admirado com a quantidade de corredores.

Creio que as palavras do Jackson falam por si só, mas gostaria de dizer que é um belíssimo exemplo de superação e força de vontade.

Amigo Jackson,
Agradeço de coração todas as palavras que me dirigiste. Fico feliz de estar conseguindo aquilo que tinha em mente quando criei o blog. Servir como uma ferramenta de motivação e de informação. Estarei torcendo por ti e sempre que precisar estarei a disposição para ajudar.

E sobre sábado, é só você procurar uma tenda branca com o logotipo e endereço do site da Eduardo Saraiva Assessoria Esportiva e perguntar por mim. Vou te esperar por lá!

Ps: Se você, leitor, gostaria de ver a sua história publicada aqui no Correndo na Chuva, é só escrever para o e-mail bruno@correndonachuva. Vale tudo. Contar do seu começo, da sua primeira prova, da emoção de cruzar a linha de chegada. Estou aguardando sua história.

Um grande abraço a todos
Bruno Thomaz
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Projeto Conte sua história [5]

Hoje quem aparece por aqui contando a sua história é o Sergio "Peninha" Chaves, de Belo Horizonte. Ele nos traz um pequeno texto sobre a sua participação na Volta Internacional da Pampulha em dezembro de 2008. Um texto bem criativo e engraçado e que com certeza todos vocês irão gostar.

Aquecimento


Camisa verde-água, número no peito, deu graças a Deus por viver nos anos 2000, de outro modo bem poderia ser confundido com um irmão Metralha, quiçá com um preso fugido de Neves.

A mocinha do caixa fingiu não notar sua fantasia algo bizarra, reforçada pelo tênis colorido, pelo cinto de utilidades armado de bombas de água, de fazer inveja ao mais convicto suicida de Alá (Que seja louvado!), um verdadeiro boneco Lego, tantos os penduricalhos, cronômetros, frequencímetros e afins a remendar-lhe os braços. Há muito ela se habituara às excentricidades dos menos jovens que adentravam na farmácia diariamente à cata de alforria para os males da pressão, do esquecimento ou dos gases matinais

Tentando passar por doido comum, estufou o peito, encolheu a barriguinha quase sessentona e caminhou impoluto, rumo a seu alvo, duas barras de energéticos, pura caloria e glicogênio, duas garrafas de Nitro-Gatorade, para repor os sais.

A mocinha estranhou. Não era comportamento padrão melhor-idade tomar de assalto uma banca de energéticos, se ainda fosse uma caixa de losangos azuis do amor, vá lá... Seu instinto investigativo pousou sobre os escritos na camisa: “Volta da Pampulha”. Sorriu com algum desdém, posto que, não passava pelo pensar com seus botões alguém com idade pra ser avô a serpentear pelo infindável da lagoa.

De repente, ela arriscou-se:

_Ah! Hoje tem corrida né?

_Tem sim, na lagoa.

_E o senhor vai correr?

_Vou sim, pavoneou-se.

_Mas... Qual é o prêmio?

_Como?

_O prêmio! Quem chega em primeiro ganha o quê?

_Uai, num sei não. Dez ou vinte mil, sei lá.

_E quem é que ganha?

_ Quenianos. Gente jovem, magra, preparada, profissionais...

Ela ficou séria.

_Mas então... Pra que o senhor corre?

Ele armou mentalmente uma explicação técnica, uma verdadeira aula sobre ganhos à saúde, auto-estima, coisas assim. Em vez disso pagou tão somente, sorriu pra ela um sorriso de profunda ternura e saiu cantarolando: “Mais louco é quem me diz, que não é feliz! Eu sou feliz”

Foi-se embora flutuando pro seu doce hospício, ao som de um rock dos anos setenta...


Você também pode mandar sua história pro Correndo na Chuva. Basta escrever e enviar para o e-mail do blog: contato@correndonachuva.net.

E hoje teve Mundialito de Fast Triathlon, na Praia da Enseada, no Guarujá. E quem levou a melhor foi o Brasil, que somou 128 pontos nas três baterias. Juraci Moreira venceu as duas primeiras baterias, ficando a terceira com o santista Paulo Miyashiro, que chegou a abrir cerca de 20 segundos para o segundo colocado. O outro integrante do trio brasileiro era o Fábio Carvalho. Esse foi o quinto título do Brasil nesse torneio. A prova é formada por três baterias de 250 metros de natação, 4km de ciclismo e 1,3km de corrida cada.

E para ontem tinha programado um treino de 13k, mas senti uma indisposição estomacal (leia-se vômitos) durante o treino, e acabei fazendo só 10k. Fechei o mês de janeiro com apenas 80k rodados, já que fiquei uma semana descansando após a São Silvestre, e também por ter feitos treinos de transição. Abaixo segue uma imagem com meu relatório mensal do Sport Tracks.



Um abraço a todos
e que venha fevereiro!
Bruno Thomaz
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Projeto Conte sua história [4]

E o nosso projeto "Conte sua história" continua de vento em popa. E dessa vez quem nos conta a sua história com a corrida é o meu amigo Luciano Vaghetti, daqui de Porto Alegre. Acredito que muitos de vocês irão se identificar com partes da história do Luciano.

Grande Bruno, aproveitando a idéia do "Conte sua história" estou aqui para colaborar e dividir com os leitores do teu blog os motivos que fizeram com que eu iniciasse nas corridas.


Meu esporte era o futebol, como o da grande maioria dos brasileiros do sexo masculino, desde pequeno não largava a bola de futebol influenciado pelo meu pai. Joguei em algumas escolinhas de futsal e quando atingi os quatorze anos comecei no futsal amador. Muitos treinos, campeonatos, vitórias, derrotas, tudo se encaminhava para que o futebol fosse o esporte que me acompanharia por muitos anos. Entretanto, com aproximadamente dezesseis anos encontrei um cisto ósseo no fêmur esquerdo, próximo ao joelho e tive que enfrentar uma cirurgia bastante complicada com enxerto ósseo no local. Passado o período de recuperação, quase um ano engessado desde a virilha até a ponta do pé, quando achava que tudo iria voltar ao normal, uma fratura no mesmo lugar fez com que eu voltasse para o gesso por mais seis meses. Além disso, por ser uma lesão óssea muito grande a fratura gerou uma rotação no fêmur, deixando um problema de simetria na minha perna esquerda.


Ainda tentei voltar ao futebol, mas nunca mais foi como antes, perdi a confiança, muitas lesões bobas e algumas de sérias de ligamento e menisco, me fizeram aos poucos perder a vontade de jogar. Sempre gostei muito de esportes, mas nenhum se comparava ao bom e velho futebol, até me encontrar com a corrida é claro.


Natural de Rio Grande, em 2003 vim pra Porto Alegre e meu esporte passou a ser a sinuca. Com ela veio junto a cerveja e o cigarro, acessórios imprescindíveis para se jogar uma boa sinuca. Diante disso o sedentarismo tomou conta do meu ser, barriga aumentando a cada semana, respiração diminuindo e assim caminhava a minha evolução, se é que dá pra chamar isso de evolução. Sempre digo que para largar um vício o mais fácil é arrumar outro, e foi o que eu fiz. Estava navegando na internet e vi que eu maio de 2007 aconteceria a vigésima quarta maratona de Porto Alegre, pensei que poderia completar os 10km da rústica, larguei o cigarro e comecei a treinar.


Completei a prova em 46 minutos e 53 segundos, um resultado maravilhoso para um marinheiro de primeira viagem. A prova foi sensacional, como é emocionante uma largada, só ouvindo o barulho dos milhares de tênis ao fazerem o contato com o solo, aquelas passadas marcadas, que só quem está concentrado na prova consegue perceber.


Aquele momento mexeu comigo, passou uma coisa tão boa que de lá pra cá já foram diversas provas, não larguei mais a corrida. Atualmente, treino quatro vezes por semana, com assessoria esportiva, meu objetivo é baixar dos 40 minutos nos 10km e já estou bem próximo. Além disso, neste ano planejo correr minha primeira maratona.


Embora a corrida me atraia por ser extremamente competitivo, hoje em dia, sinto muito prazer em correr na rua, com sol ou com chuva, me desligo completamente do mundo, é um momento que fico sozinho comigo mesmo, um momento em que conto as horas do dia para que chegue logo, louco pra correr sem rumo e sem destino, e quem sabe um dia tenha fôlego para fazer igual ao Forrest Gump.


Esse é o Luciano, na Corrida Eco Run de 2008.

Essa é a história do Luciano. Você quer ver a sua história por aqui? Então é só escrever e enviar para contato@correndonachuva.net. Mas não esqueça. Você tem que contar algo relativo à corrida! Como você começou? Aonde? Quando? Como foi sua primeira corrida? A sua emoção quando cruzou a linha de chegada?

Um grande abraço a todos
Bruno Thomaz

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Projeto Conte sua história [3]

Hoje vamos dar sequência ao "Conte sua história no Correndo na Chuva", publicando um texto do amigo Samuel Moreira, de Salvador. A história dele é muito boa e engraçada. Vale muito a pena dar uma lida e até deixar seu comentário após!
Vamos ao texto!


Você é maluco?

Calma, vou explicar:
comecei a correr há pouco tempo, isso se comparado com as inúmeras pessoas que conheci participando das corridas. Sempre fui admirador do movimento e até então tinha elegido o futebol como o meu esporte preferido. O tempo foi passando, passando e fui percebendo que os babas aqui em Salvador, como chamamos o futebol na beira da praia, foram ficando mais chatos. Os meus sábados eram sagrados aliados a conveniência com a maré, pois quando estava baixa a bola rola melhor.

Há um pouco mais dos meus 42 anos a chatice foi aumentando, pois ficava cada vez mais explícito a rejeição pela minha presença nos babas da praia. Aí comecei a analisar a situação, e o porquê do futebol estar ficando chato. Observei que uma boa parte, talvez a maioria, das pessoas que assim como eu iam jogar futebol na areia, estavam sumindo, com o passar dos tempo. O interessante é que até então não conseguia saber o motivo, até que um dia cheguei cedo para garantir o meu lugar e estranhamente pelo ao menos para mim, não fui chamado.

Até que uma daquelas vozes ainda em transformação me disse:
- Tio, assim que um de nós cansar dá o lugar para o senhor.

Já havia ouvido em outros sábados coisa semelhante, mas não dei muito importância, mas dessa vez acredite, doeu. A promessa foi cumprida, pois um daqueles FDP, quer dizer, Federação Desportiva da Praia, cansou e me deu o lugar. Conclui que realmente o futebol estava ficando uma chatice.

E ai, o que fazer?
Como já disse sempre fui admirador do movimento e num belo dia, resolvi me inscrever numa corrida. A Corrida Rústica dos Bancários com aproximadamente 7 km, sem ter nunca feito um treino, sem preocupação de calçar um tênis adequado, e nem me lembro se estava de meia, e lá fui eu. Hoje já entendo o porquê do meu desespero na chegada, mas deixa pra lá.

Achei bacana, participei de outra, mais outra e quando me dei conta já estava até treinando. E o negócio foi se tornando tão grave que até planilha de acompanhamento comecei a fazer. Hoje tenho no meu histórico, 46 corridas oficiais incluindo 4 meias maratonas, uma São Silvestre, fazendo um total de 471.665 metros corridos equivalentes a 37h07min20s e mais 1.657.218 metros com 138h58min42s em treinamentos num período de 2005 pra cá. Bem, essa estatística fica por conta da maluquice.

O fato de ter trocado o baba pela corrida não acabou com aquela história de "tio", só que tem uma diferença já que hoje em dia ouço coisas como:
-Pô! O tio corre pra caramba;
-Duvido que você corra igual ao meu tio;
-Vai tio, vai tio...

Finalmente cheguei à conclusão que tenho uma infinidade de sobrinhos.

Bem, e o: "Você é maluco?"
Há, sim, sou maluco por corrida.

Essa é a história que o nosso amigo Samuel quis compartilhar conosco aqui no Correndo na Chuva. Você também pode ver o seu relato publicado aqui no Correndo na Chuva! Para isso, basta escrever o seu texto e enviar para contato@correndonachuva.net. Mas não esqueça! O texto tem que ser original e narrar sua história com a corrida, como começou, onde, quando, como foi a primeira prova, e por aí vai. Não perca tempo, envie a sua história de amor com a corrida!

Um grande abraço a todos
Bruno Thomaz
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Projeto Conte sua história [2]

Hoje quem conta a sua história no Correndo na Chuva é o amigo Luiz Sebastião, lá da cidade de Olinda-PE.

Ele nos conta sobre a sua primeira participação na tradicional corrida de São Silvestre e o texto está muito bom, apesar de um pouco extenso, mas vale muito a pena dar uma lida e depois comentar o que achou!


UMA CRIANÇA NA CORRIDA DE SÃO SILVESTRE - Luiz Sebastião Jr.

Em alguns momentos de nossas vidas é preciso ouvir a criança que vive dentro da gente, é preciso deixá-la sair, é preciso render-se às suas vontades.

Lembro como se fosse hoje dos finais de ano de minha infância, dos dias 31 de dezembro, da expectativa pelo ano novo que chegava, das mudanças que ocorriam naquela época do ano e de como, naquele dia específico, ficava vidrado na TV assistindo a um evento que à primeira vista não parecia ter nada a ver com os últimos momentos que antecediam às festas de reveillon: milhares de pessoas, pouquíssimas famosas, uma multidão de anônimos, correndo, algumas com faixas e fantasias, pelas ruas de São Paulo, na famosa Corrida de São Silvestre. Lembro de ficar dando voltas no jardim de casa me sentindo o próprio Rolando Vera, atleta equatoriano, campeão quatro vezes consecutivas naquela época. Recordo de dizer, para mim e para todos, que um dia iria correr a São Silvestre. Obviamente riam de mim e certamente pensavam algo como: “criança tem cada idéia!”

Alguns dizem que a gente cresce e acaba perdendo a ingenuidade, a pureza e a alegria da criança que um dia fomos. Não acredito nisso, apenas acabamos por esconder da sociedade o que de melhor temos, por medo de sermos ridicularizados. Adão e Eva foram crianças que ao crescer perceberam-se como realmente eram, e ficaram com vergonha de assim serem. Sentiram-se ridículos e passaram a usar as folhas de parreira da ignorância e da arrogância, encondendo a beleza de admitirem-se, como diz o grande Gonzaguinha, eternos aprendizes. A vontade de ser pequenos deuses nos faz esquecer de ser quem somos, belos, ingênuos, puros, felizes, aprendizes eternos. Passamos a nos preocupar com o pecado original ao ponto de esquecermos que originalmente somos mesmo inocentes, que antes do pecado há a inocência original.

Mas como disse no começo, um dia essas coisas voltam à tona, seja por mudança gradual ou, como é mais comum, por mudanças abruptas que nos fazem repensar nossos destinos, e mesmo que este “repensar” não altere completamente nossos caminhos, ao menos nos fazem trilhar, durante algum tempo, por trajetos pouco comuns. No meu caso um desses trajetos foi de exatos 15km, os 15.000 metros que separam a largada da chegada na Corrida Internacional de São Silvestre.

Setembro de 2007, um revés profissional precipitou-se em meu caminho. Nessas horas olha-se para o presente, para o futuro e bastante para o passado. Nesse momento, cruzo com o Luiz criança, correndo em torno de um “pé de flor” imaginando que os poucos metros daquela circunferência eram semelhantes ao asfalto paulistano. E num gesto de impulso lá estava eu, na internet, fazendo minha inscrição, comprando passagens aéreas, reservando hotel, correndo na beira-mar de Olinda, no começo mal agüentando 1km, mas persistindo dia após dia.

Mas não era apenas correr a São Silvestre que eu queria, meu objetivo era também retornar ainda em 2007 para casa. Queria “passar o ano” com minha família. No papel o plano estava bem delineado: corrida, corrida para o hotel, corrida do hotel para o aeroporto (Guarulhos), vôo saindo às 21h. Duração prevista: 3 horas e 20 minutos. Fazendo as contas não daria tempo, mas bendito horário de verão que o Nordeste não segue, de modo que se ganha uma hora voando-se contra o fuso. Previsão de chegada: 40 minutos antes de 2008 começar a explodir em fogos de artifício. Família meio contrariada com o rompante de alguém que sempre foi muito certinho. Por dentro, orgulhosa; por fora preocupada. Tempos de problemas aéreos, atrasos em aeroportos, probabilidade alta de entrar em 2008 sentado no chão frio de um aeroporto. Mas o processo já havia sido iniciado e havia outra dificuldade: não conhecia São Paulo! Bendito seja o Google Maps e o Motorola A1200. Nada como a tecnologia!

Entre passeios e descansos (repouso é importante) chega o grande momento. A Av. Paulista parecia com o carnaval da minha Olinda, sem as ladeiras (descobriria eu mais tarde que uma ladeira em especial me esperava em poucas horas). Gente fantasiada, sorrindo, tirando fotos, enfim, uma festa onde éramos ao mesmo tempo convidados e homenageados. Eu estava em uma competição esportiva, oficial, profissional, sem a mínima chance de fazer um tempo menor que 2h, mas o povo estava lá para torcer por nós. Onde isso acontece? Já imaginaram um Fla x Flu, um Corinthians x Palmeiras, um Náutico X Sport (só pra lembrar da minha terra) e ao final do jogo o público esperar para ver uns peladeiros jogarem? Pois bem, os quenianos já haviam ganho a corrida a mais de uma hora, mas muita gente continuava ali, principalmente na tal ladeira, na inacreditável subida da Brigadeiro Luís Antônio, dando força para que não desistíssemos. Só a São Silvestre permite isso, esquecer de tempo e de posição, e pensar apenas em cruzar a linha de chegada.

Mas eu pulei o início e fui quase para o fim. Voltemos... vai se aproximando a hora da largada e a ampla Av. Paulista parece encolher, até o ponto em que você percebe que não há mais como sair de onde está. A ansiedade vai para as alturas, o narrador ao longe anuncia a largada, bolas de gás são lançadas no céu, o barulho dos fogos de artifício ressoam pelo ar, todos batem palmas e... e... e... e continuamos ali parados. É nesse instante que eu percebo que antes da Corrida de São Silvestre, existe a “Parada de São Silvestre”, de onde eu estava ficamos cerca de seis minutos parados. Aos poucos começamos a nos arrastar bem lentamente: a “Arrastada de São Silvestre”. Mais alguns minutos e conseguimos enfim... caminhar (“Caminhada de São Silvestre”). Após doze longos minutos eis que me deparo com a placa de... LARGADA.

O começo é uma maravilha, todos sorrindo, aplausos, o Shrek e um dos Transformers correndo ao meu lado, descida da Consolação, as pessoas se confraternizando, pouco se importando com o tempo, brincando com o semáforo que acabara de ficar vermelho dizendo que devíamos parar. Contudo, o melhor foi ver os corredores cantando uma música bem conhecida ao dobrar uma certa esquina: “alguma coisa acontece no meu coração, que só quando cruzo a Ipiranga e a Av. São João”. Tem coisas que a Globo não mostra!

Calor escaldante! A metereologia informou que o dia anterior havia sido o dia mais quente de 2007 na capital paulista e o dia seguinte não devia estar perdendo por muito. Água? Só no km 4, um absurdo, e ainda mais quente. Até isso virou piada no orkut, pois alguém muito espirituoso justificou que a água quente devia ser para honrar o pacote de café que veio no kit do corredor, brinde de um dos patrocinadores. Bem, mas isso é um detalhe...

Km 5, Elevado Costa e Silva, primeiro trecho em aclive, os efeitos da empolgação passando e de repente a gente se vê perguntando a si próprio o que se está fazendo ali. Um dos voluntários, não sei se querendo estimular ou fazer gozação diz: “ah, se continuar assim não completa os 15km". Provavelmente o comentário era para que corréssemos mais rápido, mas aí me lembro da fábula do Ésopo, da lebre e da tartaruga, que deve-se ir devagar se vai-se ao longe. Diminuí o ritmo, eu estava só em São Paulo e lembrei-me que até a virada de 2007 para 2008 eu teria que enfrentar outras corridas. Portanto, não podia exagerar!

Km 8 e um dos momentos mais cruciais segundo meu planejamento. Se fosse desistir deveria ser ali, pois passando daquele ponto, voltar demoraria mais do que completar a corrida. Pensei: “só em estar aqui já é muito!, vou voltar para o hotel e começar meu regresso com mais tempo de sobra”. Aí a criança voltou a incomodar, a querer sair de dentro e com ela saiu também uma força estranha, talvez a mesma força que o Caetano disse que fazia o Roberto Carlos cantar. Resolvi continuar...

Tudo ia bem, até o ritmo melhorara, faltavam apenas 2km, só que, se no meio do caminho do Drummond havia uma pedra, no meio do meu caminho havia a já comentada “subida da Brigadeiro”. Contornar a esquina que me levava novamente à Paulista e ver uma placa escrita CHEGADA, parecia um sonho. Mas quando o sonho se mostrou bem real, o cansaço sumiu, a prudência se escondeu e se um dia eu conseguir correr os 15km naquele ritmo que corri os últimos 200m, é melhor que os quenianos se cuidem...

Brincadeiras à parte, cruzar a linha de chegada junto com o Luiz criança que agradecia pelo Luiz adulto ter tornado aquele sonho real, foi uma das melhores experiências da minha vida. Para encurtar a história, o plano de estar junto à família à meia-noite, a despeito de todo o caos aéreo fartamente noticiado naqueles dias, também se tornou realidade.

Às margens da praia de Boa Viagem, vendo o show pirotécnico ali apresentado, a medalha de participação na corrida era mais do que uma medalha, era a comprovação de que aqueles momentos foram reais, que embora nada pudesse garantir que 2008 fosse ser realmente um feliz ano novo, ao menos aquele dia seria novo sempre que eu fizesse sua memória, até porque etimologicamente fazer memória não é apenas recordar o fato, mas sim vivenciá-lo novamente em cada recordação, é acabar com o paradigma do tempo – passado, presente, futuro – é criar um rito, que na definição da raposa do livro do pequeno príncipe, é fazer com que um dia seja diferente dos outros dias, uma hora seja diferente das outras horas.


Esse é o relato do Luiz. Você também pode ver o seu relato publicado aqui no Correndo na Chuva! Para isso, basta escrever o seu texto e enviar para contato@correndonachuva.net. Mas não esqueça! O texto tem que ser original e narrar sua história com a corrida, como começou, onde, quando, como foi a primeira prova, e por aí vai. Não perca tempo, envie a sua história de amor com a corrida!

Um abraço para todos
Bruno Thomaz
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Projeto Conte sua história

Hoje, a partir desse post, estou colocando em prática uma idéia que há tempos estou desenvolvendo. Até criei um projeto de nome "Conte sua história no Correndo na Chuva", e consiste de corredores amadores (como eu) escreverem a história da sua vida com a corrida. Porque começou a correr, quando, aonde, a primeira vez que correu uma prova, etc. Assim como eu já contei diversas vezes sobre a emoção que senti ao completar minha primeira prova, achei que muitas outras pessoas iriam querer ter o gostinho de usar o meu humilde espaço na blogosfera para contarem a sua história também.

Quem quiser participar, sinta-se a vontade para escrever seu texto (podendo ser ilustrado), enviando para o e-mail do blog, o contato@correndonachuva.net.

Acredito que desta forma, podemos incentivar muitas pessoas a começarem a correr. Pessoas que já sentem um pouco de vontade, só faltando mesmo o incentivo. Espero que essa idéia prospere e tenha vida longa.

Para dar a primeira passada então, um belo texto da minha amiga Regianne Casseb, de Montes Claros, MG.



CORRENDO NA CHUVA - Regianne Casseb

“- Correndo na chuva?
- Sim, e o dono do blog vai publicar.
- Por que este nome para um blog?
- Sinceramente? Nunca parei para pensar nisso. Mas faz muito sentido...”

Quando eu era criança, sempre gostei de andar na chuva...da sensação de liberdade que isso me dava.

Na virada do ano 2005 para 2006, a agenda nova tinha um campo para ser preenchido, na verdade uma página inteira. Ali eu escrevi só uma palavra: CORRER!

Sim, em 2006 eu queria correr. Mas como assim, correr? Praticante de musculação desde 1992, com intervalo somente numa das gestações, me sentia pesada, sem resistência aeróbica. As caminhadas eventuais não me estimulavam...Queria correr!

Curiosamente, tinha um bloqueio emocional...uma vergonha de correr na rua, onde todos me veriam, sei lá, desengonçada? Por isso, a decisão, assim...objetiva, pensada!

Quando dei meu primeiro trote, e ‘morri’ em dois minutos, achei que nunca conseguiria. Mas fui atrás de informação, perseverei e daí a alguns meses trotava 30 minutos seguidos. Contratei uma personal, que montou um programa detalhado e me acompanhava uma vez por semana. Funcionou. Consegui evoluir e passei a me considerar uma corredora de rua.

O corpo melhorou, a disposição...Nossa!!! Pequenos detalhes valiosos. Incorporei definitivamente a corrida à minha rotina de atividades físicas. Com uma vantagem, levo para onde for.

Na verdade não tinha e não tenho grandes ambições na corrida. Aos poucos fui vendo que para mim é melhor assim mesmo. É suficiente preservar somente o prazer, sem os ‘ferimentos de guerra’ das longas distâncias. Quero mesmo é sentir o sol e o vento no rosto, me abstraindo de todo o movimento das ruas, levar minha prática para qualquer lugar, conhecendo novos trajetos, parques, cidades, pessoas. Isso me basta!

Voltando ao nome do blog, para quem corre na rua, como eu, a chuva pode ser vista como um obstáculo. Acho que ‘Correndo na Chuva’ na verdade retrata a gana que temos de colocar o tênis e sair correndo, faça sol ou faça chuva. Ou seja, é aquele contrato celebrado pelo corredor consigo mesmo...

Nosso ‘compromisso’ com a corrida é sacramentado a ponto de nos fazer declinar do convite feito pelo sofá e pela TV, quando começa aquela chuvinha gostosa pingando na janela.

Melhor ainda, é quando ela – a chuva - nos pega no meio do treino, cansados, suados, mas já endorfinados. Os primeiros pingos nos refrescam, os seguintes nos ensopam, e, continuando a chuva, outros nos atrapalham a visão, encharcam as meias, mas lavam nossa alma...Então só penso em abrir os braços e fazer o vôo de Vanderlei Cordeiro de Lima. Tirem todos das ruas, parem os carros, pedestres, bicicletas. Estou correndo de olhos fechados. A rua é MINHA!!!

Faço agora a cena principal do meu filme, como Gene Kelly, em “Dançando na Chuva”, sou livre, feliz, tenho absoluto controle do meu corpo, tempo e espaço. Estou voando."
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Correndo na Chuva © Desde 21 de setembro de 2008. Por Bruno Thomaz. TNB

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